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bloco de notas

“Nove horas, quarta-feira de um dia qualquer”. “Preciso falar”. “A garrafa está pela metade, como eu”. “Eu tinha de ‘Matar, viver e anotar’ como recomendou o Capitão”. “Um Sniper não pode ser capturado”. “Isso dá moral”. “Ele se torna troféu na mão do inimigo”. “Vai sofrer e tem morte certa”. “A orientação ‘Segurar a granada colada no peito e puxar o pino’”. “Vejo meus dedos encarangados”. “É frio”. “Eles doem”. “Por conta do que passei em missões”. “Comparo com o impacto de um calibre 50”. “Ao que acontece com um coração de mãe”. [Primeiro Sargento/Batalhão/Sniper]. “É minha patente”. “Somos como ursos solitários”. “No indicador, o veredito”. “Sempre decidi!”. “Anotei tudo”. “Guardei minhas palavras em meu bloco de notas”. “Em meu coração”. “Em minha mente”. “O estrago que faz um Barrett M107 é algo difícil de esquecer”. [Temperatura dez graus negativos]. [Quinze horas]. [Quinhentos metros]. [Pela luneta eu o vejo]. [O idiota ...

A doze

“O que está fazendo?”, perguntou-me. “Pretendo caçar”. Deu meia-volta e seguiu para a cozinha, o cheiro era de bolo de maçã. Olhei pela janela e contemplei a chuva fria. Perdi-me, olhando o horizonte, o mar. Por toda a minha vida eu quis estar ali. Bateu-me no ombro, era um chá adocicado, perfeito em seu aroma. “Beba, espanta o frio”, me disse. Agradeci com um sorriso. Ela entendeu. Sempre que Mariana fazia esse bolo com maçã, guardava as cascas para a infusão. Sentei na varanda e fiquei olhando a cabana de madeira. Um sonho que acabou e ainda continuava de pé. Estranho. Talvez fatídico. Coloquei a mão no bolso e li no maço de cigarros que servia de papel, “Eu te amo, mais do que imagina”, era da Clara, que não fumava. Dobrei novamente em quatro partes e devolvi-o ao mesmo esconderijo. Lembrei dela comigo, os dois sentados na areia, ao sol como lagartos que se esquentavam depois do amor, eu fumegava, ela me fitava com carinho. Era triste. Pensar em tudo aquilo me soava fúnebre. Tant...

O dia da execução

“Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do senhor por longos dias”, Salmo 23 – 6. Eu não sei exatamente em que acredito, mas o fato é que os humanos precisam crer em algo, só isso. Tento pensar que ler algumas linhas da bíblia antes de encontrar com o prisioneiro me faz bem. Não sei se faz. Mesmo assim, caminhava firme e procurava confiar que a bíblia me confortava como precisava. O corredor estava frio. Havia pouca luminosidade nesse dia. Podia ver as sombras dos condenados se movendo em suas celas. Era como se as suas almas deixassem os seus corpos e pudessem vagar com toda a liberdade para além das grades. Cheguei até a cela. Parei. Olhei para o sujeito. Eu estava diante do matador mais cruel de que já ouvi falar. Ele não se moveu quando me viu.  Havia quatro guardas e o capelão comigo. “Vou entrar para conversarmos”, avisei. Sentado na cama, não abriu a boca. O quarteto sacou suas armas, pois o procedimento é es...

Conta-gotas.

“Nunca esperei que pudesse amar algo com tanta força.”, ela me disse. Eu não sabia o que responder. Calado, andei até a janela e acendi um cigarro. As coisas estavam diferentes de quando nos conhecemos. Os nossos papos não batiam mais. Ela preferia o conta-gotas sempre. Insisti mais uma vez, mas ela tornou a repetir a frase de antes. Fui para o quarto e catei a minha mochila. Pela porta entreaberta eu a olhava na mesma posição. Os seus longos cabelos haviam sumido, agora ela usava a cabeça raspada. A camisa branca que ela vestia já não era mais tão branca assim, e por entre tanta sujeita, vi alguns pingos de sangue pelo meio dela. Sua calça jeans surrada, rasgada nos joelhos me mostrava suas pernas dessecadas de um jeito febril. Os seus braços carregavam um pico em cima do outro, por entre inúmeras feridas, muitas delas infeccionadas com toda a loucura junkie do mundo. As suas tatuagens já não tinham mais a mesma visibilidade de antes, pois não havia carne alguma pra mostrá-las pra...

Eu nunca fui bom.

Eu era visto como um aluno problema. Não me interessava pela didática aplicada no colégio Santo Irmão, mas a minha mãe achava que eu devia estudar numa escola tradicional, cheia de regras e renomada. Ela queria que o meu uniforme escolar fosse reconhecido em todos os cantos. Eu não sei as razões que faziam com que ela pensasse esse tipo de coisa, mas o fato é que olhando por esse lado, eu estava no lugar certo. No entanto, eu sabia que essa presepada não rolaria. O professor Josepe, era o único que pensava em mim com carinho, embora houvesse reprovado com ele, eu tinha consciência de que ele não poderia me passar de ano, porque eu entreguei a minha prova toda em branco. Quando a gente conversava, ele era o único que conseguia entender que o meu interesse estava focado em literatura. Acho que ele respeitava o fato de que eu não curtia as mesmas coisas que os outros. Afinal, ninguém é igual a ninguém. Eu dividia o quarto com dois sujeitos interessantes. O Miguelangelo era uma bo...

Cais

Os amendoins do Nojento estão no final. Acho que eu também. Passei toda minha vida numa quitinete imunda e úmida na zona pobre da cidade. Meus livros esparramados pelo chão davam um toque especial para a decoração decadente. Sempre achei que a arrumação era uma perda de tempo. Afinal, quando se quer alguma coisa, é preciso encontrá-la, independente de qualquer coisa. Por isso, nunca me importei com onde deixava isso ou aquilo. Importava-me com o Nojento, que passava boa parte do tempo no bolso de meu casaco, o que facilitava as coisas para mim. Ele é um bom companheiro. Foi por isso que aproveitei meu tempo comigo, com ele, com meus cigarros e meus sonhos. Não dei importância para a humanidade. Foi como cheguei até aqui. Estranho em saber que tenho tuberculose por tanto tempo. Mais exíguo ainda, é pensar que até agora, ela nunca deu cabo de mim. O tratamento me deixa com o estômago torcido. Acho que essas idas e voltas para o coquetel me seguraram em pé, mas pioraram a situação ru...