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Imaginável medo

A última sessão de fisioterapia contou com uma conversa cabal. “Não tem mais jeito”, disse a doutora. Ele pensou em seus contos, em seus livros, em seu trampo. “Porra, é o fim”, falou ele. Restou apenas o silêncio por parte dos dois. Deixou um adeus e um abraço a todos da clínica. “Não existe culpado além da doença, o porco reumatismo”, foi o que ele pensou. Acendeu um cigarro e saiu andando. Lá pelas tantas começou a correr. Tinha pressa em cumprir sua promessa, seu destino! Abriu a porta do “apertamento” que só a imobiliária que lhe cobrou uma vida inteira de aluguel sempre chamou de apartamento. “É agora”. Olhou a parede e deu uma série de socos violentos. Sangrou muito. Pegou o litro antes de recomeçar e ligou a maior boca do fogão enquanto podia. Por tanto tempo esperou tal dia. “Chegou”, pensou ele. De novo acertou a parede com toda a força, igual uma batida de surdo. A dor não foi maior que a da alma. Por toda uma vida procurou um caminho. Achou seus dedos, sua sorte e se...

Curto-circuito

Sentei na latrina. Nem bem larguei o barro e as baratas já grudavam em minha bunda. E de tanto ficar sem fazer nada, guardado aqui, tive tempo pra pensar em muita coisa. Você pode achar uma besteira o que vou dizer, mas foi sentando nessa latrina cheia de baratas que eu notei que precisava cagar o mais rápido possível. Parece banal, mas é uma conclusão fundamentada. O meu entendimento não é dos mais brilhantes, mas a minha vida me serve de espelho pras minhas atitudes. E foi colocando o dedo onde não devia que eu percebi o choque. Quando eu nasci, meu pai estava desparecido. Não posso dizer mais nada, além disso, porque qualquer coisa que eu fale será mentira. Isso é tudo que eu sei sobre ele: que saiu de casa pra ir até o bar e sumiu! A minha mãe tentou de muitas formas, manter a nossa família com a barriga cheia. Acredite se quiser, ela era simples, não tinha estudo e nunca teve uma boa educação, nem estrutura familiar adequada. Garanto a você que pra perceber coisas apare...

Amanda não vai embora

Sentada no sofá, acaricia seus lábios. Levanta sua perna esquerda que apoia com seu pé. Seu joelho vem parar perto de seu queixo. Com a mão direita, faz caracol em seu cabelo, só por arte, para deixar cair o rolo feito de quando em quando. Seus olhos são como uma imensidão perigosa. Um lago parado e profundo que cintila o que você não alcança ver. Neles existe algo que me deixa a pensar em seu significado. Viceja um ar por entre os dois que nunca desvendei. Meus pensamentos mandam meus olhos para seus lábios e vejo mel. Distribuídos para fascinar e fazer mal. São de um tamanho que de discreto nada tem, de tanto que chama outros. Beber deles é encontrar um mestre para todo sempre. Eu a amei com todas as minhas forças. Não tenho ideia de por que aconteceu. Em minha mente não havia problema. O pior de tudo é a certeza de nunca saber a verdade. Não é justo! Agora penso mil coisas e só passo mal por conta de tal silêncio. Pensei em fazer o mesmo. Talvez seja minha única saída. Alg...

Humanos fedem

Apertei o pneu e empurrei com força. Cheguei até o criado mudo. Abri a gaveta. Estava lá. Reluzia. Saquei o tambor, seis balas. Rolei-o com um toque de dedo e, num golpe curto devolvi-o para o seu lugar. Estalou seco! Gosto de ouvir o som do encaixe. É como uma espécie de ritual. Algo que me dá prazer. Usei a outra mão e voltei para perto da janela. Vi meu reflexo nele. Estava limpo. Um matador como eu, metódico, aprecia a morte desde o seu início. Entende? Coloquei a arma junto de mio core, como prefiro. Um Raging Bull, cano dez polegadas merece esse cuidado. O 45 foi uma encomenda das mais apropriadas, para a minha arte. É assim que vejo a morte, como arte. Já na rua, o breu da escuridão apanhava as calçadas sombreadas pelas árvores em meio ao canteiro central da avenida. Aproveitei o terreno e deslizei pelo passeio. Escutava o soar das rodas ao tempo que me aproximava do lugar. Lucrei as mãos e acendi o careta. A fumaça ia embora e eu sentia o gosto que só o filtro vermelho pod...

Olhos azuis

“Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito — entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma série de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos”, Edgar Allan Poe. “Uma noite, fiz a beleza sentar em meu colo. E achei amarga. Injuriei. Me preveni contra a justiça. Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, a vós meu tesouro foi entregue! [...] Ah! pequei demais: — Mas, caro Satã, por favor, um cenho menos carregado! e esperando algumas pequenas covardias em atraso, como aprecia no escritor a falta de faculdades descritivas e instrutivas, lhe destaco estas assustadoras páginas do meu bloco de condenado eterno”, Arthur Rimbaud. Eu o via sempre durante essas quermesses em favor da igreja. Ele era um menino magro e alto, com um nariz enorme e vermelho. A sua pele alva e seus cabelos negros como a ponta das suas unhas sujas de terra, me passavam um ar bucólico e inocente. O que mais gostava nele era o seu jeito de fal...

Agonia na cadeira de balanço

_1 O casarão é mórbido e enorme. Fica perto de minha casa. Sempre que tenho de passar em frente, atravesso a rua. É um lugar medonho de dia e de noite. Antigamente, sede de uma fazenda, que com o tempo, fora engolida pela cidade. Um lugar pesado e cheio de agonia. _2 “Veja, meu amor, Francisco de Goya é o maior pintor que conheço”, comentava George, empolgado, ao tempo em que contemplava “Saturno Devorando Seus Filhos”. Ela não disse nada, mas sorriu, olhando-o com seus olhos azuis. Helena esticou seu braço, oferecendo sua mão ao marido, que atendeu a sua iniciativa e apanhou-a, ao tempo em que seguiram para a varanda, onde George, gentil, a acomodou na cadeira de balanço. George trabalhava como restaurador de obras de arte, e achava que a mudança para a fazenda, herança recebida de seu pai, era oportuna, tendo em vista que, pensava em aumentar a família e tinha a chance de viver bem, sem problemas financeiros cuidando do gado e aproveitando um dos cômodos da majestosa casa como...

Diário de um interno no manicômio Jean Cloude Barnett

“Só que ele estava com um humor infernal, porque tomou aquela pílula, entendem? Não sei que tipo de pílula era aquela. Uma pílula vermelha”, Stephen King. _1 “Estava sentado em minha cama. É sempre assim, eu tenho esse canal aberto com outros mundos, outras dimensões. Entende? Foi do nada, abriu um abismo no chão, cheio de dentes, que me engoliu e me atirou numa estrada fantasmagórica”. _2 Estava perdido. Os calos e as bolhas em meus pés tornavam-se quase insuportáveis, andava fazia dias. Acho que era por isso que a minha mochila estava mais pesada que o normal. Enquanto tragava o cigarro, soltava a fumaça e sentia uma espécie de papa na boca, por causa da secura do ar e da textura do monóxido de carbono que os carros lançavam ao passarem por mim, me ignorando completamente, pareciam até que fugiam de alguma coisa ou alguém. “O vale da morte”, dizia a placa pela qual cruzei. Olhava em minha volta e via a vegetação rude acompanhada de um clima de desesperança, um lugar cheio ...