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Pra onde foi a porra da paz?

Ando pensando em me arrastar até uma caverna e viver de besouros e minhocas, sujeira e solidão, só que eu sinto preguiça de tentar, porque em pouco tempo estarei novamente procurando um novo lugar, chego a cogitar que talvez, o que eu busco não existe, aliás, o que a gente encontra no mundo de hoje que possa tocar a nossa alma, a nossa existência? Eu não sei, ando um tanto quanto cansado, achava que um dia tudo isto ia passar, que eu poderia me ver com a barba feita, com um terno liso e uma gravata agarrada em minha garganta como um cão raivoso a me morder, e que pudesse me sentir bem a carregar uma valise brilhante e cheia de acordos infames, mas não foi assim, eu não consigo fazer parte de certas coisas. Já pensei em descer pra os esgotos e ficar por lá, a viver de baratas e ratos frescos, mas se eu fizer isto e puder aguentar um bom tempo, sei que logo as profundezas dos esgotos também estarão cheias, porque eles estão por todos os lugares ...

Confissões que a gente só faz na cama

“Amor, eu espero que a gente se case um dia.” “Eu acho que não é uma boa ideia, você só está empolgada porque esta foi a nossa primeira noite.” “Pois é, você é tão louco, eu me amarrei.” “Fique tranquila, querida, em dois dias o amor acaba.” “Mas por que em dois dias?” “É que as minhas cervejas acabaram e a minha grana também.”

Tudo o que ele quer é estar em paz

Ele anda e para diante da fonte, sorve um gole, senta, olha firme o horizonte. Ele pensa, rumina, nada diz. O vento é forte, a tempestade está próxima, há uma barra, uma faixa escura a vir de encontro dele, mesmo assim, ele não se move. Os primeiros trovões soam, os iniciais pingos são volumosos e tocam a sua face, nenhum deles escorre, pois um a um penetram em sua carne e encharcam a sua vingança, a sua alma, a sua dor. Os transeuntes o olham e não creem, alguns fazem o sinal da cruz, e outros tantos resmungam: “Deus, ele está seco, mesmo embaixo de chuva ele está seco”. Calado, ele se levanta, e errante se move em direção do horizonte, porque tudo o que ele quer é estar em paz, afinal de contas, ele está seco, cansado de simplesmente, matar.

São 9 andares

“Mas o que você está fazendo aqui?”, perguntou. “Ora, bebendo uma cerveja”, falei. “Mas por que aqui em cima?”, insistiu comigo. “É que a minha TV está um lixo e a minha mulher quer assistir, então eu vim até aqui dar uma olhada na antena”, falei. “Certo”, respondeu, “mas você não vai me impedir, vai?”, finalizou. “Impedir, como assim, impedir de quê?”, perguntei. “Bem, eu decidi que vou me suicidar e acabar com toda esta porra de vida”, respondeu. “Entendo, mas me diga, você acha mesmo que vale a pena, pense na sujeira que vai fazer lá embaixo, na calçada da rua, imagine a confusão, são 9 andares, projete a imagem de um gari com uma vassoura e uma pá na mão recolhendo o que sobrou de todo o seu corpo e das suas frustrações e odiando a experiência, o seu nome ficará marcado como o de um simples suicida, eu acho que não vale a pena, vá pra casa, abra uma cerveja e depois de bebê-la, durma, quando acordar, tudo ficará bem, o que acha?”, falei. “Certo, você tem razão, eu ...

Pois então eu fiquei louco

Sim, como se não bastasse todas as notícias, como se não bastasse todos os impostos, como se não bastasse todos os incoerentes, como se não bastasse todos os empecilhos, ainda isto, foi o que pensei, logo que vi o desastre, então emendei: porra, a merda da máquina fotográfica se foi, esta foi a minha reação, afinal de contas, era preciso carregar a bateria da maldita máquina fotográfica a cada foto, ou seja, eu escrevia em minha máquina de escrever, fotografava e postava em minha página na rede social Facebook, mas agora, isto se transformou em algo inviável, pensei: o que faço agora, se o público gosta de cartões?! Então apelei pra tecnologia com um humor de cão raivoso e baixei um programa pra diagramação e fiquei contente, eu escrevia no Word, passava o texto pro Corel Draw, punha a fonte de máquina de escrever e postava na rede social Facebook, só que como se não bastasse tudo isto, agora me aparece um aviso dizendo que a opção...

Novidades

Todo dia tem uma nova, um botão, uma cor, uma caixinha com uma surpresa, todo dia sai um cortezinho novo no texto, e o que era ontem já não é mais hoje, a todo instante, uma novidade o condiciona, e tudo é muito simples, ou você usa o que tem, ou então conversa com o banqueiro.

Está chovendo e as caixas estão quase todas vazias, ainda bem

Normalmente, levo a minha vida sem horários definidos, sem regras, sem nada, só que nos últimos tempos, isto mudou, mas é por uma boa causa. Eu reviso, eu edito, eu faço oficinas literárias dentro e fora da internet, nas escolas e nas universidades, eu mantenho grupos de estudos literários e textuais, e eu também escrevo feito um louco, é o único modo que encontrei pra seguir, eu sou um polvo, um mutante, sabia? Seja segunda, terça, quarta ou quinta, lá estou eu, isto já tem quase um mês que neste horário, 5h, percorro as estações de ônibus, os cafés, as padarias, as ruas, os botecos onde os trabalhadores ganham peso, e nestas horas eu sou uma mosca matutina, sabia? Porém, na sexta, no sábado e no domingo, eu me torno um ser noturno, uma espécie de morcego a rodar os postos de gasolina, os botecos, as esquinas, as pizzarias, é assim que eu vivo, entregando de mão em mão, um livro pra um, um folhetim pra ...