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Os dois lados da mesma moeda

Estou munido de coragem. Dizem que esta merda de programa de reconciliação dá certo. Fala-se que colocar as duas partes, uma diante da outra: é benéfico. Parece que o índice é muito bom. E mesmo depois de dar a eles o que queriam não ganhei nada em troca. Vou dizer o que fiz. Eu matei. Queria meter um carro e matei. Ele não me entregou a chave. E na luta: era eu ou ele. Eu atirei. Eu era o predador naquele momento. Eu errei! Fui preso. Estou aqui. Vou pagar meus pecados. Mas ela não me perdoou. Disse que o perdão não traria seu marido de volta. Eu sabia disso melhor do que ela. Muito bem, eu aceito. Não tenho o poder de purificar. Deve achar ser melhor do que eu, mesmo sem entregar o perdão que cultiva em sua igreja. Mas eu tive um motivo pra meter o carro. Pra entrar pro crime. Vamos ver se me ouve até o fim e me entrega um pouco de toda a virtude que exige. Quando pequeno, eles estouravam a nossa porta atrás de algo que nunca existiu lá. Arrancavam as gavetas. As roupas ...

No campo de batalha

Ele me olhou e disse: “Meu amigo, vamos pra casa. Acabou. A guerra acabou”. Havia esperança nos olhos dele. E certamente ainda havia esperança nos meus. Sonhamos tão grande que eu acho que não conseguimos realizar tanto. Quando abandonei o meu canhão eu senti vontade de chorar. Mas as palavras dele me sustentaram. Até hoje ainda nos correspondemos. A gente fez um acordo depois do nosso batismo de fogo. Foi uma batalha dura e a madrugada era congelante. Bebemos um litro de uísque. No fundo queríamos afugentar o medo e a culpa ao mesmo tempo. Não sei ao certo. Mas o mais importante de tudo é que estávamos dispostos a sairmos juntos daquele inferno. Cumprimos o juramento que fizemos um ao outro. E isso é verdadeiro. E totalmente justificável. O que não fazia sentido era a guerra. Estávamos ali pra defender os interesses de nossos líderes. Tudo começou quando disseram que lutavam pela nossa nação. Pensar que homens fumando charuto decidiam a nossa sorte é uma loucura. Precisáv...

O último gole de conhaque

Fazia um frio doido. Ele olhava pela janela enquanto os demais quebravam o bar inteiro. Nem mesmo sabia o motivo. E tinha um desinteresse enorme em descobrir. Sentia uma sensação de preguiça. Quem sabe, até mesmo uma espécie de desamor. Não sabia ao certo. O importante era preservar aquele último gole de conhaque. Sua manhã fora longa, sua tarde seria mais longa ainda. E mesmo sabendo que a noite haveria de chegar não conseguia pensar em outra coisa. Tudo o que queria era a sua poltrona e a sua máquina de escrever.

A revanche

Abri meus olhos e mirei o teto por longos instantes. As moscas voavam e o meu estômago parecia torcido. E isso me fazia entender de onde vinha boa parte do cheiro que adornava as minhas camisas, os meus casacos, a minha pele e os meus pensamentos. E a minha carniça é invariavelmente composta de café preto, gordura de pastel, álcool, tabaco, perfumes baratos e toda a alma que faz daquela espelunca, a mais odorosa da cidade. Não pense que estou reclamando, é apenas um autoexame de reconhecimento. Quando reviro o meu ser, as minhas roupas, a minha quitinete, os meus escritos e todo o mais, encontro mais ou menos a mesma coisa: a minha vida. E a minha vida é quase uma extensão daquela pocilga. Pois é, realmente não busquei nada diferente disso. Eu sempre soube que a desgraça não atraía tantos candidatos e isso me mostrou que eu não precisava lutar pra ter o que a maioria sempre desdenhou. Louco. Inútil. Desafortunado. Perdedor. Seja lá como for: pouco me importa. A grande verdade,...

Sobre eu e o meu lixo

O contêiner da rua está sempre cheio, porque todos os moradores dos arredores usam essa porra. Há todo tipo de coisa lá dentro. Acho que o lixo de uma pessoa pode falar muito a respeito dela. E o meu lixo é composto basicamente por latas de cerveja, algumas embalagens de comida congelada, que me transformam em alguém muito melhor, por consumir tal produto, e muitos maços de cigarro amassados, como a minha cara. Eu sei, vou morrer, mas isso eu já aceitei, o que me incomoda mesmo, é muito maior. Porque o lixo é algo que fala com a gente. Só que nem todos prestam atenção nele. O ser humano vive em fuga. Gosta do que é bonito, do que cheira bem. Somos hipócritas por natureza. E temos a esperança de que a verdade sobre nós mesmos não nos leve pra dentro de um sanatório. E isso faz sentido. Ao menos pra minha pessoa. Não pense que sou um sabichão, porque na verdade, eu me pareço com meu lixo, e sinto como se houvesse um contêiner abarrotado dentro de mim, prestes a...

Pra onde foi a porra da paz?

Ando pensando em me arrastar até uma caverna e viver de besouros e minhocas, sujeira e solidão, só que eu sinto preguiça de tentar, porque em pouco tempo estarei novamente procurando um novo lugar, chego a cogitar que talvez, o que eu busco não existe, aliás, o que a gente encontra no mundo de hoje que possa tocar a nossa alma, a nossa existência? Eu não sei, ando um tanto quanto cansado, achava que um dia tudo isto ia passar, que eu poderia me ver com a barba feita, com um terno liso e uma gravata agarrada em minha garganta como um cão raivoso a me morder, e que pudesse me sentir bem a carregar uma valise brilhante e cheia de acordos infames, mas não foi assim, eu não consigo fazer parte de certas coisas. Já pensei em descer pra os esgotos e ficar por lá, a viver de baratas e ratos frescos, mas se eu fizer isto e puder aguentar um bom tempo, sei que logo as profundezas dos esgotos também estarão cheias, porque eles estão por todos os lugares ...

Confissões que a gente só faz na cama

“Amor, eu espero que a gente se case um dia.” “Eu acho que não é uma boa ideia, você só está empolgada porque esta foi a nossa primeira noite.” “Pois é, você é tão louco, eu me amarrei.” “Fique tranquila, querida, em dois dias o amor acaba.” “Mas por que em dois dias?” “É que as minhas cervejas acabaram e a minha grana também.”