O tempo

Acordei
pensando nele.

E o que me passa
pela cabeça,
é que devo
confiar no tempo.

Passo dias
corridos demais.

Troco o almoço
por um lanche,
com o propósito
de chegar em casa
à noite e jogar
a minha carcaça
destruída no sofá
ou na cama,
em busca de repouso.

E aproveito
todo e qualquer
segundo disponível,
na construção das melhores
ideias que alcanço.

E na resolução
de problemas,
que nem sempre
são meus.

E,
enquanto corro,
como louco por aí,
em busca de muitas coisas,
também me esqueço do tempo,
em muitos momentos.

E esqueço,
muitas vezes,
de mim mesmo.

Contudo,
em meio a toda
essa correria,
acredito que
preciso encontrar,
em algum momento,
um instante
solitário e egoísta.

Pra lamber as
minhas feridas.

Pra ouvir uma
música que gosto.

Pra ler um tanto
de poesia
e sarar a minha sanidade.

O tempo,
ele é o que escorre
pelas minhas mãos,
enquanto vivo
e o emprego de um modo
certo ou errado.

Ao menos,
é o que me parece.

Portanto,
faço tudo que posso,
mas já não me cobro
em tempo integral.

Em modo integral,
com jogo duro,
em relação a mim mesmo.

Estou aprendendo
a economizar-me,
pra que eu não enlouqueça.

Estou aprendendo,
que não posso
salvar o mundo.

Que não posso
agradar o mundo.

Que não sou
um homem de aço.

Estou aprendendo,
que o tempo é bom.

E que nada
do que faço,
será bom o bastante
se não tenho um
olhar e um ouvido
disposto.

Estou aprendendo
a viver.

Estou aprendendo,
que o tempo
é algo que ninguém apaga.

Estou entendendo,
que ao passo
em que me destruo
por tudo e por nada,
sofro em dobro.

Estou aprendendo,
que não posso me destruir
pra agradar
quem me exige esforço
em tempo integral.

Estou aprendendo,
que se eu
não me mantiver vivo e sadio,
ninguém o fará por mim.

Enfim,
o tempo,
eu acho que o tempo é bom.

Estou aprendendo,
que o tempo
se encarrega de trazer
as flores e os pássaros.

Estou aprendendo,
principalmente,
que o tempo,
é um ótimo amigo.

Uma camisa de força

Somos enganados o tempo todo
A cada turno
Em que entramos nas fábricas

Eles nos prometem um punhado de moedas
E sempre existe uma enorme perspectiva pra crescer
Mas nada certo
Tudo depende exclusivamente de você
É o que dizem

Mas eu não vejo nada disso
E o que eu vejo
São pessoas
Entregando os seus sonhos
E sacrificando os seus dias
Sob o pretexto de uma promessa
Que no fundo
Nem ao menos existe

E quando você chega em casa
Destruído
O que você (a gente) faz?

Raspamos as moedas em nossos cofrinhos
E saímos como loucos por aí
Doidos pra gastar o que não temos
Em coisas que nem ao menos
Precisamos

Sei lá
Talvez eu seja só um louco
Mas o fato é
Que quando fui em busca de lucidez
Havia uma camisa de força

Nas mãos do meu enfermeiro

Um grito no campo

Mantenha sempre a serenidade
E a resiliência

Seja aquele grilhão
Frio
Imóvel e duro

Seja o tronco
Aquele
Bem no centro da fazenda

Seja forte como um cavalo
E durma em pé

Nunca curve os teus joelhos
Feche os teus olhos
E eleve
Teu espírito ao céu

Feche os punhos
Agarra-te
E não deixe que nenhum gemido
Saia de tua boca

E o encare nos olhos
Ele precisa saber
Que tu não sentes medo
E não o respeita

Não seja
Como os que o mandaram embora

E o largaram na cocheira
Pra que a moça
Fosse viver na capital
E pudesse formar-se

Mas seja
Como os que o acolheram
E o amaram
Porque não aguentaram
Ouvir o teu choro
Quando todos
Estavam surdos

O amor é um pecado?
O dinheiro é um Deus?

Eu não sei
Só o que sei
É que ninguém
Consegue prender
Um espírito
Que desde criança correu a planície
Enquanto esperava
Um novo dia pra guerrear

Aprenda a trançar o couro
Faças tu mesmo o teu laço
E a tua boleadeira

Seja um homem grande
Coma com vontade

Mantenha-te calado na maior parte do tempo
E não deixe que as lágrimas façam morada
Em teu olhar

Preserve a cabeça
Guri
Porque tua mão tem de aprender a bater
E o teu coração precisa
Saber amar

Mantenha os lábios colados
E o queixo
Sempre mais alto do que o teu gargalo
Pra que ninguém pise em ti

E mostre ao teu cavalo
Que os dois
São um só

Olhe a névoa toda manhã
Mas proteja teus ombros
Com teu poncho

A peça que nos roubaram
Com tudo
E com tantas
Mágoas

Só monte em pelo
Eles precisam saber
De que sangue tu és feito

Tu
És um moço perdido
Um vaqueano
O filho do descarte
Da guerra
E da escravidão
Que conhece todos os campos
Os pinhais da serra
E o pampa

Jovem
Guri
Que com 10 anos
Viu neve na Vacaria
E cruzou todas as coxilhas
De Muitos Capões
No lombo do taura
Pra aportar na Lagoa Vermelha
Sempre embrenhada de barro
E que até hoje
Se pode ver
Mesmo lá da estrada

Acredite
Guri
Um dia
Será o melhor ginete
E ganhará ouro e prata

E nesta noite escura
Em meio ao campo
Coberto de estrelas
Me dê um último abraço
E depois monta
E vai ao pasto
Que os homens cuidarão de tudo

Olhe aqui
Em meus olhos
Guri
E me prometa

Faça tua boa-ventura
Pra cobrar em toda planície
O nome do vô
O homem que brigava e laçava sorrindo
Sem medo da morte
Ou mesmo de arder no inferno
E que agora se despede

Não judie qualquer bicho
A gente só mata se for pra comer
E com toda misericórdia

E por isso
Deita-te sobre o animal
Pra que o espírito dele
Viva no teu

E se vai cobrir o badalo
Só aceita
O chiripá

E se tem muito espinho
Em teu caminho
Só a garrão de potro serve
Em teu pé

Tenha crença
E esperança
Faça um arco
E o carregue
Sempre em tuas costas

E fique com minha naifa
Pois a entrego
Pra tua garantia
Se um dia
Surgir um corpo a corpo

Vai
E coreia uma vaca dita madrinha
A mais velha
A mais gorda
Que o couro é grande
Pra estender
Sobre o fogo
Enquanto dorme
Na planície que vagueia

E de tempos em tempos
Vai pra Santo Ângelo
Buscar boiada boa
De canela fina
Que tem zebu no sangue

E quando voltar
Aqui na Vacaria
Desembucha toda a boiada aqui na fazenda

Mas só recolhe o gado na mangueira
Depois de forrar o bocó
Com o ouro e a prata

Pois tu tens de aprender
Que fazer bom negócio
Também é ofício

Precisa decorar o peso
Com o balanço do punho
Pra saber se a quantia é certa

Mas nunca toma o caminho da porteira
Antes de morder
Pra saber
Se o que te entregaram
Tem mesmo valor
E nunca leva nada desonesto
Pois o que a mão pega
A vida tira com a faca

E semeia sempre
Uma boa-nova
Respeita qualquer um
Mas na hora de montar
Tem de mostrar
Que o teu pelo
E o do cavalo
Serão pra sempre um só

E levanta alto o teu braço
No meio do piquete
E quando isso acontecer
Olha pro céu
Porque nessa hora
Eu e Tupã
Vamos sorrir
Pra ti

Depois toma uma golada da cachaça
E antes de embrenhar
Teu corpo no pelego
Vai logo tratar tua esperança
Porque ela é teu cavalo
E o teu fiel companheiro
Tem de ter aveia e água
Em quantia no cocho

E quando conhecer uma guria
Tira o teu chapéu pra ela passar
E nunca esqueça
Que o amor
Tem coisas boas
Como liberdade e respeito
Porque assim
Os dois
Por todo sempre
Terão as melhores asas

E agora vai
Guri
E voa
Embaixo das estrelas
Que quando eu subir
Eu quero te ver
Galopar
Por esse campo
Lá de cima

E nunca esquece
Eu te entreguei o melhor que tinha
Em forma de amor
E quando olho no teu olho de onça
Eu sinto
Mesmo antes de morrer
Que tu tens
A vontade
De vencer

E se encontrar a coragem de que precisa
Não haverá brete
Que seja capaz de te prender

Agora vai
Guri
Porque eu sinto
Que chegou minha hora
E preciso partir

Vai
Galopa e voa
Que eu completei o meu diário
Mas o teu
Ainda tem muito espaço
Pra preencher

Agora vai e voa
Pois o mundo está cheio
De serra
De campo
E planície

Pra vaquear e conhecer

Fogo no céu

Em meio ao caos
Do mundo insano
Galopo um alazão
Que cospe fogo
E tem um par de asas

E como disse o sábio
Poucos sabem das feridas do inferno
Porque senão
O que faríamos dos anjos?

Em que sepultura enterrou o que sente
Em que mundo fez seu cerne
Como chama seu cavalo?

E quantos quilos ele pesa?
Como ele é de pata?
E quando ele bufa
Você consegue sentir o calor?

Eu tenho um demônio em minhas mãos
É selvagem e poderoso
E sempre que o vejo
Solto suas rédeas
E o deixo me levar

E depois de algumas milhas
Ele é manso
E relincha
E bate seu casco no chão quando me vê

E nessa hora
Eu tenho certeza
Ele sabe
Que vamos matar a saudade
E correr
Correr
Até virarmos fogo no céu

E possamos morrer