Uma camisa de força

Somos enganados o tempo todo
A cada turno
Em que entramos nas fábricas

Eles nos prometem um punhado de moedas
E sempre existe uma enorme perspectiva pra crescer
Mas nada certo
Tudo depende exclusivamente de você
É o que dizem

Mas eu não vejo nada disso
E o que eu vejo
São pessoas
Entregando os seus sonhos
E sacrificando os seus dias
Sob o pretexto de uma promessa
Que no fundo
Nem ao menos existe

E quando você chega em casa
Destruído
O que você (a gente) faz?

Raspamos as moedas em nossos cofrinhos
E saímos como loucos por aí
Doidos pra gastar o que não temos
Em coisas que nem ao menos
Precisamos

Sei lá
Talvez eu seja só um louco
Mas o fato é
Que quando fui em busca de lucidez
Havia uma camisa de força

Nas mãos do meu enfermeiro

Fogo no céu

Em meio ao caos
Do mundo insano
Galopo um alazão
Que cospe fogo
E tem um par de asas

E como disse o sábio
Poucos sabem das feridas do inferno
Porque senão
O que faríamos dos anjos?

Em que sepultura enterrou o que sente
Em que mundo fez seu cerne
Como chama seu cavalo?

E quantos quilos ele pesa?
Como ele é de pata?
E quando ele bufa
Você consegue sentir o calor?

Eu tenho um demônio em minhas mãos
É selvagem e poderoso
E sempre que o vejo
Solto suas rédeas
E o deixo me levar

E depois de algumas milhas
Ele é manso
E relincha
E bate seu casco no chão quando me vê

E nessa hora
Eu tenho certeza
Ele sabe
Que vamos matar a saudade
E correr
Correr
Até virarmos fogo no céu

E possamos morrer

A canção da eternidade

De tempos em tempos
Viajo em busca de uma oportunidade
Pra ouvir os segredos
Que as águias contam
Enquanto cantam
Lá no alto da montanha

E costumo levar uma lona comigo
Pra imitar um ninho
Parecido com o delas
Pra que eu possa abrigar
O meu corpo
E libertar a minha mente
Durante uma boa temporada
Pra refazer o meu espírito

É onde
E quando
Faço uma fogueira
Com lenha
E folhas de laranjeiras
Pra queimar os maus espíritos
E a rodeio de mantas
Feitas no tear
E que me aquecem durante
As longas horas
Que me cobrem
Ora de sol
Ora de lua
Ora de estrelas
E horas e horas
E dias e dias
E meses e meses
E que revestem o meu arco
Com a luz de que preciso
Pra me refazer
Tal qual uma águia
Que de tempos em tempos
Enterra-se pra renascer
E redobrar a sua vida
E a sua força

É um tempo de isolamento
De aprendizado
De aceitação
E de boa-vontade
Em que a minha alma vibra
Pois sinto que o meu sangue circula
E impulsiona meu coração a bater feito um tambor
Que ecoa dentro de meu peito
E faz música em meu prado mais distante e isolado
E dotado de um vale verde
Que poucas vezes
Se viu

E tal esforço
É penoso
E pacífico
E solitário
Enquanto arranco as minhas penas
As minhas garras
E por fim
Quebro meu próprio bico
Com pancadas lancinantes
Nas pedras que rodeiam o fogo
Que aquece o meu ninho
E sara minha alma

É um momento de sabedoria
O qual eu sempre seguirei
Porque nossas leis
Não são cumpridas
Por que são escritas
Mas sim
Porque são sagradas
Aos homens que rodearam minha mãe
No momento de minha luz
E que por todo sempre
Repetem o mesmo gesto a todos
Que de bom grado
Guardam crianças
E velhos com a mesma devoção
E talvez
Por isso
Tenhamos dois aniversários
O primeiro
Como guerreiro
E o segundo

Como águia

Na estrada

Gosto de levar uma vida rude
Busco a liberdade desde o dia em que nasci
Nunca foi uma escolha
E sempre me pareceu muito maior do que eu
Sou um cara parecido com qualquer um
Ando de bar em bar
De dia em dia
De noite em noite
Eu gosto do vento
E quero furar o horizonte
Enquanto vivo uma utopia
Com o único objetivo
De manter
Meu corpo
Minha mente
E meu espírito em movimento
Eu sou um homem na estrada
Sou um cara parecido com qualquer um
Que busca um caminho
Algo que possa me fazer sorrir
Todo dia
E assim como você
O que busco é um pingo
De amor
E um tanto de liberdade
Eu quero um amor
Pra findar as minhas noites
Um lugar pra voltar
E amigos pra beber
E conversar
Eu acho que os homens
Podem sim
Encontrar um sonho de amor
E bons corações
Pra repartir um pouco

Do que sentem

Sobre o homem e a piedade

O homem com o machado em sua mão,
não tinha piedade do semelhante desarmado.

Contudo,
sua ignorância o impedia de raciocinar
além da própria vantagem.

E por isso,
o homem desarmado deu no pé,
mas passou na loja que vendia machados,
antes de chegar em casa.


E no dia seguinte,
tudo mudou.

Os dois lados da mesma moeda

Estou munido de coragem. Dizem que esta merda de programa de reconciliação dá certo. Fala-se que colocar as duas partes, uma diante da outra: é benéfico. Parece que o índice é muito bom. E mesmo depois de dar a eles o que queriam não ganhei nada em troca.
Vou dizer o que fiz. Eu matei. Queria meter um carro e matei. Ele não me entregou a chave. E na luta: era eu ou ele. Eu atirei. Eu era o predador naquele momento. Eu errei!
Fui preso. Estou aqui. Vou pagar meus pecados.
Mas ela não me perdoou. Disse que o perdão não traria seu marido de volta. Eu sabia disso melhor do que ela.
Muito bem, eu aceito. Não tenho o poder de purificar. Deve achar ser melhor do que eu, mesmo sem entregar o perdão que cultiva em sua igreja.
Mas eu tive um motivo pra meter o carro. Pra entrar pro crime. Vamos ver se me ouve até o fim e me entrega um pouco de toda a virtude que exige.
Quando pequeno, eles estouravam a nossa porta atrás de algo que nunca existiu lá. Arrancavam as gavetas. As roupas do roupeiro. E as panelas de dentro do armário e jogavam tudo no chão.
Não respeitavam nossos trapos e nossa pobreza. Diziam, “Abre a boca, passarinho”. Como se alguém pudesse concordar com o que não fazia ou mesmo contar o que não sabia, ou ainda: entregar o que não tinha.
Como se dinheiro brotasse do chão pra comprar uma porta e todo o resto que quebraram enquanto arrancavam tudo do lugar. E no dia seguinte eu não tinha uma xícara pra tomar o leite que tanto me custou.
E depois de muito horror, diziam, “Vamos voltar”. E todas as noites voltavam. E embora nunca encontrassem o que pensavam que havia ali: não desistiam. Como se fosse obrigatório encontrar droga e roubo em nosso barraco.
Minha mãe chorava. Eu chorava. Meus irmãos choravam. E uma noite, em meio ao caos, ela teve um AVC, logo depois de terem feito o trabalho deles e saído.
Consegui levá-la até o hospital com a ajuda de um taxista vizinho. Mas isso não bastava. Voar pelas ruas até o hospital não era suficiente. Porque ao chegar: não tinha médico, não tinha leito. “Só particular, moço”.
A minha mãe morreu. E eu morri também. Não sobrou nada aqui dentro. Então eu jurei que nunca mais ficaria parado naquele ponto de ônibus esperando por ele.
Sabe por quê? Porque todas as manhãs, às 4h30min, eu esperava aquela merda pra ir até o meu emprego descarregar caminhão cheio de areia, de cimento.
Porém, quando aquele carro parava com suas luzes acessas, eu tremia. “O que está fazendo aí?”, queriam saber. Ora, pois, eu morava ali. “Que culpa tinha eu de morar ali, porra?”. Eu não podia dizer aos demais o que deviam fazer de suas vidas ou mesmo de suas casas.
Então, eu punha minhas mãos no muro. E o homem que queria que eu afastasse as pernas chutava o meu pé porque desejava que eu os afastasse mais. Podia pedir. Não precisava chutar. Eu carecia do meu corpo inteiro pra encarar um dia longo puxando saco feito um jumento, pra ter a honra de ser honesto e ver a minha casa demolida todas as noites, e assistir minha mãe morrer como se fosse um animal. Isso revolta a gente. Estraga a sua cabeça e o seu coração.
É óbvio, como dois mais dois são quatro, que ao levar um chute em meu pé, minha perna envergava e eu mexia meu corpo. Ele chutou, porra. Aí o castigo era na segunda costela, uma pancada que me tirava o ar. O mesmo ar que não existia pra encher os pulmões de minha mãe naquela noite.
A vida é pesada, não acha?
Sei que cada ser é único. E também sei que comparar-se aos outros é fétido. Porque cada um sente de um jeito.
Mas por favor, me diga, “Quem pode consertar a minha cabeça e o meu coração? E mais, por que, entre as duas partes, só eu não tive direito à justiça?”. E a mais importante de todas as perguntas que tenho, “Você, que tem mãe, e que não me perdoa: pode devolver a minha?”.

No campo de batalha

Ele me olhou e disse: “Meu amigo, vamos pra casa. Acabou. A guerra acabou”. Havia esperança nos olhos dele. E certamente ainda havia esperança nos meus.
Sonhamos tão grande que eu acho que não conseguimos realizar tanto. Quando abandonei o meu canhão eu senti vontade de chorar. Mas as palavras dele me sustentaram.
Até hoje ainda nos correspondemos. A gente fez um acordo depois do nosso batismo de fogo. Foi uma batalha dura e a madrugada era congelante. Bebemos um litro de uísque.
No fundo queríamos afugentar o medo e a culpa ao mesmo tempo. Não sei ao certo. Mas o mais importante de tudo é que estávamos dispostos a sairmos juntos daquele inferno.
Cumprimos o juramento que fizemos um ao outro. E isso é verdadeiro. E totalmente justificável. O que não fazia sentido era a guerra.
Estávamos ali pra defender os interesses de nossos líderes. Tudo começou quando disseram que lutavam pela nossa nação. Pensar que homens fumando charuto decidiam a nossa sorte é uma loucura.
Precisávamos de mantimentos. E a resposta foi essa: “O bom soldado acha a sua comida”. Claro que sim. Fomos obrigamos a tomá-la do povo pra seguirmos as decisões de quem fumava charuto.
A nossa munição estava no fim. Pedimos mais. E a resposta foi objetiva: “Usem as baionetas”. Isso foi horrível. Quanto mais a gente matava mais a gente morria.
Aprendi uma coisa na guerra. Pra cada homem no campo de batalha havia alguém a chorar. No fundo somos todos iguais. Tudo o que queremos é paz pras pessoas que amamos.

Porém, homens que fumam charuto nem sempre se importam com isso. Porque embora houvesse muito sangue no campo de batalha não se via nenhuma gota em seus casacos ou medalhas. E isso faz toda a diferença.

O último gole de conhaque

Fazia um frio doido. Ele olhava pela janela enquanto os demais quebravam o bar inteiro. Nem mesmo sabia o motivo. E tinha um desinteresse enorme em descobrir. Sentia uma sensação de preguiça. Quem sabe, até mesmo uma espécie de desamor. Não sabia ao certo. O importante era preservar aquele último gole de conhaque. Sua manhã fora longa, sua tarde seria mais longa ainda. E mesmo sabendo que a noite haveria de chegar não conseguia pensar em outra coisa. Tudo o que queria era a sua poltrona e a sua máquina de escrever.

A revanche

Abri meus olhos e mirei o teto por longos instantes. As moscas voavam e o meu estômago parecia torcido. E isso me fazia entender de onde vinha boa parte do cheiro que adornava as minhas camisas, os meus casacos, a minha pele e os meus pensamentos.
E a minha carniça é invariavelmente composta de café preto, gordura de pastel, álcool, tabaco, perfumes baratos e toda a alma que faz daquela espelunca, a mais odorosa da cidade.
Não pense que estou reclamando, é apenas um autoexame de reconhecimento. Quando reviro o meu ser, as minhas roupas, a minha quitinete, os meus escritos e todo o mais, encontro mais ou menos a mesma coisa: a minha vida. E a minha vida é quase uma extensão daquela pocilga.
Pois é, realmente não busquei nada diferente disso. Eu sempre soube que a desgraça não atraía tantos candidatos e isso me mostrou que eu não precisava lutar pra ter o que a maioria sempre desdenhou.
Louco. Inútil. Desafortunado. Perdedor. Seja lá como for: pouco me importa. A grande verdade, é que eu não pretendo ser um exemplo. Há homens demais preocupados com isso e acho que os sem sorte também merecem admiração.
Olhei na direção do criado-mudo ao lado de minha cama e encontrei um maço de cigarros ainda lacrado. Abri e acendi um. Foi quando me surpreendi com o que encontrei.
Havia uma nota de cem, toda enrolada em um guardanapo de bar, acho que nem preciso dizer que cheirava como a minha vida, e me lembrei da disputa de queda de braço que rolou na noite anterior; o maluco jogou tudo que tinha.
Então me dei conta, e me bateu uma dúvida, o que fazer? Pensei um pouco, enquanto arrastei a minha carcaça até a janela e tomei uma decisão: eu precisava de uma xícara de café preto e um pastel gorduroso, mas pra isso, eu tinha de me entregar ao meu suposto niilismo e voltar ao boteco, o mesmo de sempre.
E tão logo cheguei à espelunca, ouvi alguém gritar, “Ele chegou!”, e então eu abri um sorriso amarelo.
Foi quando o cara levantou e disse, “Duvido que me ganhe de novo”.
A maioria é assim: eles querem tudo. E não suportam a ideia de que alguém pode disputar com eles de igual pra igual e levar a melhor vez ou outra.
Eu olhei bem no meio dos olhos dele e respondi, “Eu também, e por isso, vou tomar um café preto e comer um pastel, enquanto você toma conta do seu trono”.
Notei que o bar ficou em silêncio. E me preparei pra quebradeira. Mas não foi necessário, o desafiante só queria o trono e nada mais. E isso não é um problema meu.

Sobre eu e o meu lixo

O contêiner da rua está sempre cheio, porque todos os moradores dos arredores usam essa porra.
Há todo tipo de coisa lá dentro.
Acho que o lixo de uma pessoa pode falar muito a respeito dela.
E o meu lixo é composto basicamente por latas de cerveja, algumas embalagens de comida congelada, que me transformam em alguém muito melhor, por consumir tal produto, e muitos maços de cigarro amassados, como a minha cara.
Eu sei, vou morrer, mas isso eu já aceitei, o que me incomoda mesmo, é muito maior.
Porque o lixo é algo que fala com a gente.
Só que nem todos prestam atenção nele.
O ser humano vive em fuga.
Gosta do que é bonito, do que cheira bem.
Somos hipócritas por natureza.
E temos a esperança de que a verdade sobre nós mesmos não nos leve pra dentro de um sanatório.
E isso faz sentido.
Ao menos pra minha pessoa.
Não pense que sou um sabichão, porque na verdade, eu me pareço com meu lixo, e sinto como se houvesse um contêiner abarrotado dentro de mim, prestes a explodir.
E eu, que presto atenção em meus desejos e sentimentos, notei que toda a dor e toda a amargura que sinto se convertem em duas coisas, textos e muito lixo.
Em poucas horas o caos se estabelece, porque eu tenho muito a beber, a comer, a fumar, a chorar e a me descabelar.
Acho que o meu lixo é proporcional ao número de laudas que consigo datilografar.
E sempre que levo o meu lixo até o contêiner, que fica do outro lado da rua, costumo encontrar pessoas lá dentro.
Gente que pega as minhas latas de cerveja, gente que leva a embalagem maravilhosa daquela comida congelada magnífica, que me transforma em um ser humano muito melhor, pelo simples fato de tê-la consumido, e gente que ajunta os meus maços de cigarro.
Sim, eu sou perfeito, e como todo ser humano perfeito, eu cheiro bem.
E depois de jogar o meu lixo aos pés de quem está lá dentro do contêiner, eu posso virar as costas e voltar pra minha casa, pra mais uma vez pensar em tudo que me falta, e me esquecer de tudo que tenho.
Só que dessa vez, chovia e fazia zero grau, e quando cheguei diante do contêiner, vi aquele garoto que cheirava como espírito adolescente, e que estava lá dentro, a catar tudo que eu produzi com a ajuda dos meus demônios e meus problemas, tantas vezes fúteis, e não deu pra virar as costas e voltar pra casa.
Eu saltei lá pra dentro e o abracei.
Ele não me disse nada, mas notei que havia uma lágrima em seu olho.
Eu fiquei feliz por ele, que carregava lágrimas em seu interior, e não lixo, como eu.
E por isso, passei a ajudá-lo a encher a sua carroça.
E no momento em que ele partiu me acenando com um sorriso grato, eu fechei a tampa do contêiner e sentei lá dentro, por entre o lixo.
Eu me sentia triste e precisava saber mais a respeito de mim mesmo, e quem sabe, pudesse compreender um pouco mais sobre tantas coisas que ainda não entendo, e que aparentemente, cheiram muito bem.

Não, eu não mandei aquele garoto pra dentro do contêiner, mas eu virei minhas costas a ele e voltei pra minha casa infinitas vezes, com todo o lixo que me cabe, e que até hoje não sei ao certo, como me livrar dele.

Pra onde foi a porra da paz?

Ando pensando em me arrastar até uma caverna e viver de besouros e minhocas,
sujeira e solidão,
só que eu sinto preguiça de tentar,
porque em pouco tempo estarei novamente procurando um novo lugar,
chego a cogitar que talvez,
o que eu busco não existe,
aliás,
o que a gente encontra no mundo de hoje que possa tocar a nossa alma,
a nossa existência?
Eu não sei,
ando um tanto quanto cansado,
achava que um dia tudo isto ia passar,
que eu poderia me ver com a barba feita,
com um terno liso e uma gravata agarrada em minha garganta como um cão raivoso a me morder,
e que pudesse me sentir bem a carregar uma valise brilhante e cheia de acordos infames,
mas não foi assim,
eu não consigo fazer parte de certas coisas.
Já pensei em descer pra os esgotos e ficar por lá,
a viver de baratas e ratos frescos,
mas se eu fizer isto e puder aguentar um bom tempo,
sei que logo as profundezas dos esgotos também estarão cheias,
porque eles estão por todos os lugares e em pouco tempo todos eles estarão atrás de mim de novo,
com as mesmas conversas,
os mesmos pensamentos,
com os mesmos valores,
os mesmos objetivos e com os mesmos papéis a estampar tudo o que eles representam.
E o pior é que eles têm brilho nos olhos enquanto falam com você e tentam fazer uma lavagem cerebral em suas convicções,
é muito triste entender e aceitar que todos eles realmente desejam e acreditam em tudo isto,
e que fazem parte de tudo que o manda pra longe deles com o mais absoluto gosto.

Confissões que a gente só faz na cama

“Amor, eu espero que a gente se case um dia.”
“Eu acho que não é uma boa ideia, você só está empolgada porque esta foi a nossa primeira noite.”
“Pois é, você é tão louco, eu me amarrei.”
“Fique tranquila, querida, em dois dias o amor acaba.”
“Mas por que em dois dias?”

“É que as minhas cervejas acabaram e a minha grana também.”

Tudo o que ele quer é estar em paz

Ele anda e para diante da fonte,
sorve um gole,
senta,
olha firme o horizonte.
Ele pensa,
rumina,
nada diz.
O vento é forte,
a tempestade está próxima,
há uma barra,
uma faixa escura a vir de encontro dele,
mesmo assim,
ele não se move.
Os primeiros trovões soam,
os iniciais pingos são volumosos e tocam a sua face,
nenhum deles escorre,
pois um a um penetram em sua carne e encharcam a sua vingança,
a sua alma,
a sua dor.
Os transeuntes o olham e não creem,
alguns fazem o sinal da cruz,
e outros tantos resmungam:
“Deus,
ele está seco,
mesmo embaixo de chuva ele está seco”.
Calado,
ele se levanta,
e errante se move em direção do horizonte,
porque tudo o que ele quer é estar em paz,
afinal de contas,
ele está seco,
cansado de simplesmente,
matar.

São 9 andares

“Mas o que você está fazendo aqui?”, perguntou.
“Ora, bebendo uma cerveja”, falei.
“Mas por que aqui em cima?”, insistiu comigo.
“É que a minha TV está um lixo e a minha mulher quer assistir, então eu vim até aqui dar uma olhada na antena”, falei.
“Certo”, respondeu, “mas você não vai me impedir, vai?”, finalizou.
“Impedir, como assim, impedir de quê?”, perguntei.
“Bem, eu decidi que vou me suicidar e acabar com toda esta porra de vida”, respondeu.
“Entendo, mas me diga, você acha mesmo que vale a pena, pense na sujeira que vai fazer lá embaixo, na calçada da rua, imagine a confusão, são 9 andares, projete a imagem de um gari com uma vassoura e uma pá na mão recolhendo o que sobrou de todo o seu corpo e das suas frustrações e odiando a experiência, o seu nome ficará marcado como o de um simples suicida, eu acho que não vale a pena, vá pra casa, abra uma cerveja e depois de bebê-la, durma, quando acordar, tudo ficará bem, o que acha?”, falei.
“Certo, você tem razão, eu vou embora”, respondeu.
Tomei mais um gole e dei o fora, antes que ele voltasse e eu tivesse de me meter com esta história de novo, porra, eu sou um cara durão, solitário e egoísta, afinal de contas, não quero me envolver na vida de ninguém.
Logo que entrei em casa ganhei um beijo repentino, então respirei fundo, pois pude ver que a TV estava com uma imagem milagrosamente ideal e fiquei contente, porque eu sabia que o restante do dia seria tranquilo e poderia beber a minha cerveja e escrever em paz.

Pois então eu fiquei louco

Sim,
como se não bastasse todas as notícias,
como se não bastasse todos os impostos,
como se não bastasse todos os incoerentes,
como se não bastasse todos os empecilhos,
ainda isto,
foi o que pensei,
logo que vi o desastre,
então emendei:
porra,
a merda da máquina fotográfica se foi,
esta foi a minha reação,
afinal de contas,
era preciso carregar a bateria da maldita máquina fotográfica a cada foto,
ou seja,
eu escrevia em minha máquina de escrever,
fotografava e postava em minha página na rede social Facebook,
mas agora,
isto se transformou em algo inviável,
pensei:
o que faço agora,
se o público gosta de cartões?!
Então apelei pra tecnologia com um humor de cão raivoso e baixei um programa pra diagramação e fiquei contente,
eu escrevia no Word,
passava o texto pro Corel Draw,
punha a fonte de máquina de escrever e postava na rede social Facebook,
só que como se não bastasse tudo isto,
agora me aparece um aviso dizendo que a opção salvar não está disponível,
e pra que eu possa salvar o texto como cartão,
eu preciso pagar quase que R$300,00 pelo maldito Corel Draw.
Eu me arrepiei,
passei a cuspir fogo pelas ventas,
eu fiquei louco e pensei:
estou ferrado,
e agora como resistência,
só me resta postar no blog e compartilhar o link no Facebook,
veja só,
a grande ironia consumista e massacrante,
veja só como é a vida no mundo dos cifrões,
veja só como é altamente nocivo o caminho pelo qual seguimos,
eu pensei até na possibilidade de talvez,
comprar um telefone que tire fotos pra que eu possa escrever em minha máquina de escrever e mais uma vez possa postar os meus cartões como eu fazia antes,
mas aí,
eu te pergunto:
como faço isto,
afinal de contas,
em pleno mundo dos cifrões,
a única coisa que baixa de preço é a arte,
e depois,
quem me garante que o celular que fotografa fará ligações?
Eu me sinto perdido,
eu me sinto um guerrilheiro,
eu me sinto tonto,
mas eu também me sinto livre,
porque em meio a tanta coisa ruim,
eu tenho mais um poema pra postar,
então,
tudo que eu espero é que não fodam com o meu link,
contudo,
aconteça o que acontecer,
eu sou um homem livre e ainda tenho as minhas pernas pra continuar,
não importa o que digam,
não importa o que aconteça,
porque esta merda toda que começou como uma trincheira intransponível terminou como mais uma descarga,
mais uma tentativa,
e se eles pensam que eu vou chorar ou desistir,
eles estão fodidos,
porque isto não vai acontecer,
é só.

Novidades

Todo dia tem uma nova,
um botão,
uma cor,
uma caixinha com uma surpresa,
todo dia sai um cortezinho novo no texto,
e o que era ontem já não é mais hoje,
a todo instante,
uma novidade o condiciona,
e tudo é muito simples,
ou você usa o que tem,
ou então conversa com o banqueiro.

Está chovendo e as caixas estão quase todas vazias, ainda bem

Normalmente,
levo a minha vida sem horários definidos,
sem regras,
sem nada,
só que nos últimos tempos,
isto mudou,
mas é por uma boa causa.
Eu reviso,
eu edito,
eu faço oficinas literárias dentro e fora da internet,
nas escolas e nas universidades,
eu mantenho grupos de estudos literários e textuais,
e eu também escrevo feito um louco,
é o único modo que encontrei pra seguir,
eu sou um polvo,
um mutante,
sabia?
Seja segunda,
terça,
quarta ou quinta,
lá estou eu,
isto já tem quase um mês que neste horário,
5h,
percorro as estações de ônibus,
os cafés,
as padarias,
as ruas,
os botecos onde os trabalhadores ganham peso,
e nestas horas eu sou uma mosca matutina,
sabia?
Porém,
na sexta,
no sábado e no domingo,
eu me torno um ser noturno,
uma espécie de morcego a rodar os postos de gasolina,
os botecos,
as esquinas,
as pizzarias,
é assim que eu vivo,
entregando de mão em mão,
um livro pra um,
um folhetim pra outro,
um poema pra quem bebeu demais,
é assim que eu faço,
os meus coturnos já estão quase sem sola,
os meus olhos andam murchos,
o sono se mostra,
mas não me tem.
Eu já rodei mais de mil milhas,
mas eu estou vencendo,
eu prometi a mim mesmo que empacotaria mil livros no peito,
no barro e no pó,
e eu não vou parar até que consiga esta proeza.
Eu vivo no mundo real,
eu conheço as caras amassadas,
os corações odiosos,
os estúpidos e os vermes,
eu tenho muitas milhas rodadas,
cara,
eu conheço todos os becos deste principado e acho que quase todas as quebradas de toda e qualquer biboca num raio de trezentas milhas,
como eu disse,
eu rodo,
eu rodo,
eu rodo sem parar.
Também conheço produção cinematográfica,
eu conheço programas de edição de fotos,
eu conheço programas de edição gráfica,
eu conheço o que é custo por mil,
eu sei o que é manipulação de imagens,
como eu disse,
eu já rodei muito e aprendi como é a vida na real e como é o resto,
eu sei que tem de passar uma boa maquiagem pra tirar o brilho da cara,
eu sei que tem de andar rápido porque a diária do fotógrafo é cara e o patrão tem um celular de última geração,
eu sei que ele logo se irrita quando a produção não anda,
tempo é dinheiro e tudo tem um preço,
eu sei,
eu sei como é.
Mas hoje,
hoje choveu,
está uma tempestade das maiores lá fora,
e aqui dentro está tudo bem,
tem um disco rolando e um monte de caixas vazias,
muitas empilhadas pelos cantos e várias embaixo da minha cama,
eu olho pra elas e me sinto bem,
porque elas estão vazias,
eu passei um bom tempo sonhando com as minhas próprias caixas vazias,
eu queria tê-las como resposta,
e vê-las aqui,
vazias,
me enche o peito.
Hoje está chovendo e eu ficarei aqui,
hoje é dia de escrever,
porque amanhã,
meu amigo,
eu tenho certeza de que será um bom dia pra rodar mais algumas milhas,
só que hoje está chovendo e as caixas estão quase todas vazias,
ainda bem.