Eu nunca fui bom.

Eu era visto como um aluno problema. Não me interessava pela didática aplicada no colégio Santo Irmão, mas a minha mãe achava que eu devia estudar numa escola tradicional, cheia de regras e renomada. Ela queria que o meu uniforme escolar fosse reconhecido em todos os cantos. Eu não sei as razões que faziam com que ela pensasse esse tipo de coisa, mas o fato é que olhando por esse lado, eu estava no lugar certo. No entanto, eu sabia que essa presepada não rolaria.

O professor Josepe, era o único que pensava em mim com carinho, embora houvesse reprovado com ele, eu tinha consciência de que ele não poderia me passar de ano, porque eu entreguei a minha prova toda em branco. Quando a gente conversava, ele era o único que conseguia entender que o meu interesse estava focado em literatura. Acho que ele respeitava o fato de que eu não curtia as mesmas coisas que os outros. Afinal, ninguém é igual a ninguém.

Eu dividia o quarto com dois sujeitos interessantes. O Miguelangelo era uma boa pessoa, embora fosse um pouco porco. Não acho que eu o julgasse e muito menos que pensasse isso dele por causa de seus dentes enormes, além do mais, eu sabia que ele cortava as unhas no escuro e deixava lascas esparramadas pelo carpete por puro desleixo e não maldade. Mesmo assim, o Lavive, pensava o oposto. Até mesmo por que, Lavive era do tipo que mantinha tudo no lugar. Quem entrava em nosso quarto, percebia que ali era um território disputado por duas facções bem distintas, de um lado, a cara do colégio, e do outro, a falência do Brooklin em seus tempos áureos de bandidagem. Eu sempre tive uma queda pelo decadente, saca? Acho que o meu perfil cabe melhor por entre as sombras que em meio ao sucesso dos bons alunos e as luzes de formatura.

Mas uma coisa me marcou, o professor Josepe, Miguelangelo e Lavive foram os únicos que apareceram para me desejar boa sorte e me dar um abraço de adeus. Eles foram comigo até a parada de ônibus, no dia em que dei o fora do Santo Irmão. Era uma situação insustentável, só mesmo a minha mãe para acreditar que eu pudesse interessar para uma escola como aquela, mas tudo bem, as mães, sempre acham seus filhos o máximo. Eu até tentei mostrar os meus contos, mas aí é que fodeu tudo, eles me encaminharam para uma análise psicológica, e pelo visto, algo saiu errado, porque logo depois disso, me chamaram e me disseram com toda a educação, “Cara, você não serve.”. Claro que usaram outras palavras, mas eu sei que foi isso, não que eu lamente, porque eu achava o mesmo que eles, compreende?

Cheguei em casa sem ninguém saber. Papai bebia cerveja sem camisa, sentado no sofá, ele olhava o canal do esporte. A mamãe estava preparando um bolo, envolta de uma porção de louça e um monte de ingredientes. Olhei pela vidraça da sala e respirei fundo antes de entrar. Eu sabia que não havia uma maneira sutil de dizer, “Gente, eu não sirvo para eles.”. Olhei para o meu currículo escolar e só encontrei notas vermelhas, eu estava ferrado, como sempre.

Abri a porta com cuidado, “Simon, que surpresa boa, veio passar as férias; e de surpresa!”. Em seguida ela me abraçou, com aquele seu jeito que me estrangulava em seu ombro e me fazia colocar a língua para fora toda a vez que isso acontecia. Eu consegui perceber a cara de decepção do meu velho, que como sempre, secou sua lata de cerveja sem tirá-la da boca, num gole longo e amargo, cheio de deduções nocivas ao meu respeito. Foi quando eu ouvi, “Você é um merda!”. Ele percebeu que uma mala daquele tamanho não era para passar as férias.

Já na chegada, o clima ficou tenso, percebi a complacência nos olhos de minha mãe e o ódio na cara inchada de trago de meu pai, mas eu estava acostumado. Então, subi até meu quarto, deixei minhas coisas em cima da cama e pulei a janela como sempre. Eu queria ir até o parque, me inspirar um pouco. Foi o que eu fiz, abri a vidraça com todo o cuidado e usei a figueira grande como escada. Entrei na garagem e peguei a minha bicicleta. Numa pedalada rápida, cheguei ao parque e sentei no mesmo banco de sempre, aquele, entre a banca de revistas e o pipoqueiro, lá eu me sentia bem, entende?

Usei as moedas que sobraram da viagem e comprei um pacote bem grande de pipoca, eu gostava de ver aqueles pombos comendo. Em poucos minutos eles estavam por toda a parte, eu fui cercado por eles. Entre tantos pombos, um moribundo, todo depenado apareceu para comer, mas os outros pombos voaram em cima dele, e eu me identifiquei com ele. Então eu me aproximei, com um punhado de pipocas na mão. No começo ele se mostrou bem desconfiado, mas com muita paciência ele veio até mim, interessado pelas pipocas, claro. Ele sabia que era o único jeito de comer.

Quando as pipocas acabaram, o sol já se despedia e a noite já se mostrava, deixando a sombra das árvores negras e perigosas, era hora da bandidagem chegar. Então eu sabia, estava na minha hora de ir, não que eu temesse o crepúsculo ou a escuridão da noite e os marginais, mas eu compreendia que tinha de voltar para casa e lutar com o meu pai. Aquela altura ele já havia notado minha saída, dito um monte de coisas para a minha mãe e babava de vontade que eu chegasse logo em casa para poder me dar umas cintadas e extravasar a sua raiva. Eu larguei o pombo no chão e saí pedalando. Logo que cheguei, o pau pegou e eu subi para meu quarto, enquanto minha mãe chorava na sala e o papai quebrava tudo, nada de anormal. O único fato curioso de meu retorno: foi que o pombo moribundo me acompanhou pelo caminho. Quando eu abri a cortina da janela, lá estava ele, me olhando com aquela sua decadência, tão igual a minha. Foi por isso que o deixei entrar.