Eu também te amo

Eu me sentia mais fedido que o normal, o calor me entediava e eu não aguentava mais aqueles lençóis emporcalhados de porra grudando em mim.
— Hei Rose, vamos até o bar do Danado?
— Eu não vou. Minha cabeça está doendo. Parece que fui atropelada por uma manada de elefantes. Acordei me sentindo mais destruída que o Burroughs.
— Claro, bebeu todo o meu uísque ontem à noite. E olhando bem pra você, vejo que seus olhos são loucos como a junk.
— Seu idiota. Além de dormir fora e encher a cara no meio das rameiras, ainda acha que tem o direito de me amolar.
— Mas que marmota é essa? Nunca se importou com esse tipo de coisa. Isso é ciúme?
— Sai dessa, eu não sou careta. Você sabe disso. E pare de agir como se tudo que existe nessa espelunca fosse seu. Não sou obrigada a te agradar o tempo todo. Já fodemos hoje de manhã. Isso basta.
— Mulheres, em pouco tempo querem mudar tudo que amaram um dia. O que houve?
— Não foi nada, mas é que estou cansada das suas baboseiras.
— Mas o que isso tem a ver com meu convite? Nunca vi você recusar bebida.
— Eu não preciso de justificativas pra xingar um pau d’água feito você.
— Ih, isso tem cara de TPM.
— Seu porco, esqueceu que estamos devendo pra ele. Se aparecermos lá, vai sobrar pra gente.
— Não esquenta. O Danado gosta do que escrevo. Faço um conto e acertamos tudo, sem problemas.
— Eu estou fora. Sinto o meu estômago embrulhado. Não é um bom dia pra acabarmos deitados no sol, dentro de uma garrafa de uísque.
— Nossa, mas que humor — acendi um cigarro e dei o fora, batendo a porta.
Rose correu até a janela e gritou: — Eu também te amo — como quem reclamava por que não ouviu essas malditas palavras da minha boca. Eu não disse nada e continuei andando, sem nem ao menos olhar pra trás. Notei que ela me xingou de novo, mas eu não entendi o palavrão.
Lá pelas tantas, elevei meus olhos pro céu, levei a mão até o meu bolso e dei um gole pançudo feito eu. O uísque estava quente, uns quarenta graus. Cuiabá derretia como gelo numa dose dupla. Enquanto perambulava, fitava os malditos andantes e todos me pareciam sujos. Imundos como eu e minha alma.
Nesse instante, algo cafona e decadente me tocou. Era o amor, o meu verdadeiro e único amor. Encarei a minha garrafa de bolso com a visão meio turva, engoli meu soluço e disse: — Eu também te amo — e segui em frente, cambaleando, pronto pra morrer bem longe da Rose. Aquela vadia!