Olhos azuis

“Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito — entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma série de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos”, Edgar Allan Poe.
“Uma noite, fiz a beleza sentar em meu colo. E achei amarga. Injuriei. Me preveni contra a justiça. Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, a vós meu tesouro foi entregue! [...] Ah! pequei demais: — Mas, caro Satã, por favor, um cenho menos carregado! e esperando algumas pequenas covardias em atraso, como aprecia no escritor a falta de faculdades descritivas e instrutivas, lhe destaco estas assustadoras páginas do meu bloco de condenado eterno”, Arthur Rimbaud.
Eu o via sempre durante essas quermesses em favor da igreja. Ele era um menino magro e alto, com um nariz enorme e vermelho. A sua pele alva e seus cabelos negros como a ponta das suas unhas sujas de terra, me passavam um ar bucólico e inocente. O que mais gostava nele era o seu jeito de falar, porque o seu sotaque italiano ficava muito evidente e ele me parecia simples e honesto como eu jamais conseguiria ser. O mais doce nele eram suas atitudes, e a forma com que ria sem mostrar os seus dentes. Os seus dedos longos e rachados, eram a maneira mais sutil que tinha de mostrar a sua vida sofrida de menino agricultor. Nessas quermesses, enquanto os adultos rezavam ao pé do altar desse tal deus que tantos chamam e adoram; eu e a minha turma aproveitávamos para jogarmos bola e entre um chute e outro, badalávamos o sino da igreja e desafiávamos toda e qualquer devoção endeusada com nossas infâncias inquietas. Mas o tal italianinho, sempre me pareceu bom demais para fazer qualquer uma dessas coisas. Quando pensava nele e nessas quermesses, me vinha sempre à imagem de alguma carola parada na porta da igreja a me fazer aquele gesto com o seu indicador ereto, colado aos seus lábios, como quem dizia “Sosseguem, seus capetinhas” e o seu jeito de rir sem mostrar nenhum de seus dentes para que não fosse apontado como eu e os outros. Ele não agia como a gente e a única coisa que fazia era olhar e rir dessa maneira. O seu coração me soava grande e o seu sorriso de menino me mostrava alguém sem qualquer pretensão ao mal. Ele me parecia alguém que buscava o prazer de estar por perto, olhando, rindo, nada mais. Algo me dizia que ele achava formidável a nossa coragem, e ao mesmo tempo, que via eu e os outros como diferentes demais, e por isso queria ficar ali, diante de algo que ele não tinha a oportunidade de encontrar dentro dele. Eu achava que ele pensava coisas indefesas, como se olhasse para gente apenas como meninos que não tinham medo do padre e nem de seus pais. Imaginava até que ele tinha pavor de experimentar a sensação que a gente sentia. Era o que eu pensava. Como se chutar a bola para dentro da igreja ou badalar o sino durante a missa fosse a maior heresia do mundo.
Lembro-me da gente maior, quando a minha turma acabou. Cada um foi para o seu lado. Acho que chega um momento na vida que a solidão cabe melhor a todos, ao menos foi assim com a gente, e a turma do capeta ruiu. Alguns entraram para o exército, outros morreram, e muitos foram internados em clínicas para a reabilitação. Sobramos eu e o italianinho. Eu fumando escondido, experimentando álcool e drogas, sempre à sombra dos arbustos. Já o italianinho continuava o mesmo, e preferia me espreitar da porta da igreja, com seus olhos baixos, sempre ao tempo em que fingia rezar. Eu vivendo na loucura do Jazz, lendo e relendo Poe e Rimbaud compulsivamente. Ele com as mesmas roupas e o mesmo estilo de chapéu, as mesmas mãos sofridas. A cada dia eu me sentia ainda mais indolente e renegado. Tanto que só ia até a quermesse para traficar. As carolas agora, ao invés de gestos de recriminação, preferiam o limite do fuxico “Você viu, ele usa droga! Olhe aquela jaqueta de couro, ele pintou-a com a palavra ódio”. Enquanto o padre lá dentro, falava mal de tudo que me apetecia, eu imaginava derrubar a torre que sustentava aquele sino e a busca por esse tal deus que falei antes. Mas o pobre italianinho, esse se comportava como um cordeiro de deus que tirava os pegados do mundo e dava a paz. A minha volta, existiam sombras que me levavam para o sexo, o sinistro e a romântica delinquência. Eu tenho de admitir, olhar para o italianinho, me dava uma sensação estranha, como se eu o abandonasse. Como se faltasse com ele, pois, antes, a nossa meninice, fazia com que a distância entre a gente soasse menor, mas nessa época a minha carne separava-se dele como se houvesse um abismo a me sequestrar. Eu o via como um anjo e me sentia como um demônio. Como se tudo me sufocasse, me tirasse o ar e me mantivesse perto de uma série de conceitos que eu não podia seguir ou mesmo gostar. Eu queria pegar a estrada e andar por esse mundo em busca da verdade “Vou até o inferno” pensava, e em minha mente, ele, o italianinho não, ele ficaria e seria feliz por entre as carolas e as lembranças da sua infância. Era tão ilógico sentir essa sensação de bem-querer e simpatia em relação a ele, que eu me estranhava em sentir isso por alguém que me parecia tão diferente de mim. Tanto que no final das contas eu pensava sempre a mesma coisa “Quem sabe, esse tal deus o complete de verdade. Como pude?” me pergunto.
Ainda demorou um pouco, mas o inevitável aconteceu. Com a barba viçosa, eu parti. Fazia chuva fria e não me lembro de ninguém a me atirar um adeus ou mesmo um sinal de sorte. Eu estava só e procurava o demo. Era o que eu sentia e o que fervilhava em minhas veias, essa era a minha verdade. Ler, ouvir música e arriscar poemas e contos envoltos de palavrões era a minha distração entre uma droga e outra. Andei até à beira da faixa enquanto que via desaparecerem os últimos vagalumes e o cheiro daquela terra sumir. Eu me sentia forte, flamejando rumo ao meu destino. Era como se o capim que eu pisava pegasse fogo e tomasse conta de tudo e todos enquanto eu pensava “Até nunca mais”. Acho que o meu sentimento pelo italianinho foi a coisa mais parecida com ternura que já senti em minha vida, e por isso me foi tão difícil de entender. Era tão estranho conhecer essa sensação por alguém feito ele, não por que me devesse alguma pedra, mas justamente por que ele nunca jogou as pedras que atirei. É estranho, o fogo nunca busca a água, não em minha mente. Ao chegar à estrada de asfalto, firmei meus votos e acendi um cigarro. Louco, os faróis dos carros passando animavam a minha alma reluzente e sem caminho certo. Eu sabia o que procurava, mas não imaginava uma rota para o inferno, onde supostamente, encontraria o diabo. Passei por todo o tipo de esgoto e heresia, fodi com putas e experimentei tudo o que me despertasse a promessa do inferno. Eu abusei o quanto pude, tentando uma conexão com o inferno e seu rei. Aos poucos eu percebia que o meu mergulho era cada vez mais profundo e que a minha ligação com a realidade se tornava mais frágil cada vez que vinha à tona. Sempre acreditei que estava no caminho certo. Eu odiei, cobicei a mulher alheia, desonrei pai e mãe, roubei, pequei contra a castidade, blasfemei e menti. Tudo isso eu fiz, por toda a minha vida e em cada canto que cruzei.
Em um novembro distante, tive uma revelação que me levou a praticar o único pecado que ainda não havia cometido. Foi durante a minha caminhada pelo mundo, em busca do capeta, logo que cheguei até uma cidade perto de onde morei quando menino e conheci o tal italianinho da quermesse. Eu sempre tive o costume de percorrer os quatro cantos cardeais alterando a minha direção com a esperança de esbarrar nas respostas para as minhas perguntas “Quem é o diabo? Onde fica o inferno?”. O meu objetivo era topar com alguma porta astral que pudesse me levar até o coisa-ruim para adentrar em sua casa e aquietar esse meu coração revoltado. Lembro que sentei ao lado de uma parada de ônibus urbano, numa sombra de figueira secular, linda, marcada pelo tempo, assim como eu. Ali eu acendi o meu e fiquei. Lá pelas tantas, dividi a atenção depositada à figueira com o verde da grama e o jardim florido do lugar. Via uma casa grande de quatro andares, toda branca, feita com alicerce de pedra. Algumas estátuas de anjos e bancos em concreto faziam do lugar uma espécie de éden. Eu me concentrei nele e lá pelas tantas percebi um homem vestido de branco, que muito lembrava o tal italianinho “Não deve ser” pensei. Mas ao me fixar um pouco mais em seu semblante, a minha impressão cresceu. Ele estava lá, sentado ao banco, na companhia de um anjo petrificado e uma flor de papoula. Eu o chamei e quando o acompanhei vindo em minha direção, tive certeza, era mesmo ele. O mesmo jeito de andar. O mesmo corte de cabelo. Logo que chegou até a grade que o separava de mim, ele parou, e olhou firme em meus olhos. Era ele, o italianinho, com seus olhos embocados de loucura a me encarar. Os seus olhos azuis haviam mudado. Fixados em mim, era como se roubassem a minha alma e petrificassem o meu corpo, e eu me tornasse como as tais estátuas espalhadas pelo jardim. Cheguei mais perto da grade e perguntei “Você é o diabo?”. Ele não respondeu, mas riu sem mostrar os dentes como fazia de menino. Eu não sabia por qual motivo ele estava lá. Não sabia mais nada de sua vida, afinal, passaram-se tantos anos... Ele me olhava por dentro. O seu modo de me encarar era muito, mas muito diferente de quando o vi pela última vez, parado à porta da igreja. Eu estava sem respostas óbvias em minha mente para uma situação assim. Ele devia ter me dito antes. Eu viajei tanto para encontrá-lo e saber que ele estava lá, tão perto, me fez pensar nos motivos que o impediram de revelar-se antes. Eu cogitava muitas possibilidades, mas nenhuma delas passava de hipótese. Eu sabia que o importante era o presente. Precisava começar do zero e conhecê-lo novamente, de outro jeito, a partir daquele olhar azul, vidrado, parado, forte, profundo e enigmático. “Mas o que o diabo faz aqui, neste sanatório?” pensava. Enquanto isso, ele me olhava calado, com aquele seu sorriso sem mostrar os dentes. Eu nunca havia experimentado tanto poder. Era incandescente demais. Eu queria ficar, mas a impressão que tinha, era que a força que vinha dele me mandava andar e fui embora. Era uma sensação parecida com a que sentia enquanto menino. Só que dessa vez, era o “italianinho” quem me abandonava. Eu era o fraco e o diabo era o forte. Pelo meu caminho em retirada, eu me amaldiçoava, por não conseguir mergulhar naquele olhar ao ponto de desvendar o demo como eu tanto busquei. Além do mais, não fazia nenhum sentido “Como o italianinho poderia ser o diabo, como?” pensava. E depois, eu nunca imaginei vê-lo ali, rodeado de loucos e enfermeiros. Eu queria decifrar tantas perguntas que não conseguia ordenar os meus pensamentos. O meu passo me parecia pesado. O meu espírito era sem energia vital. Mesmo me vendo em pé, eu me sentia falecido, petrificado em minha própria verdade. Eu tinha certeza de que havia encontrado o que tanto procurava. Era ele, o demo, o coisa-ruim. Mas por que o diabo tomou minha alma e abandonou minha carne? Por quê? Por que ele me mandava voltar para a estrada, com a força de seu olhar? “Será que estou morto?” pensava. Enquanto partia, deixando-o para trás, eu sentia como se andasse por entre cadáveres ao tempo em que escutava barulho de correntes e sinos em meio ao som dos corvos que me rodeavam e me atormentavam. Será? “Teria ele, tirado de mim todos os meus pecados com seu olhar?” pensava. Eu não sabia. Só o que sabia era que o diabo tinha os olhos azuis e me mandou andar.
Tomei a estrada, em direção das montanhas. A minha volta, a natureza me fazia ouvir um rosnado interior. Algo parecido com o medo. Não que eu sentisse qualquer pavor. Mas como se eu fosse o temor, a morte, o desconhecido e medonho. Andei por dias inteiros com zumbidos e uma voz em minha cabeça “Agrade ao seu mestre, homem. Agrade!” ao mesmo tempo em que sentia aquele demônio a rosnar em meu coração. Eu olhava para o céu e via os corvos voando no alto, me acompanhando sem trégua. Era como se houvesse algo em mim que interessava a eles. Mas eu não sabia o que era. Cansado, deitei na sombra da relva e quando a vi, me assustei. Era uma menina que andava em minha direção. Eu a olhei firme e me coloquei de pé, para esperar pela sua passagem. “Senhor, preciso de água”. Eu não respondi, mas fiz como o diabo e sorri, sem mostrar os meus dentes. Ela tinha olhos azuis. “Como ousa usar os olhos do diabo?” pensei e dei-lhe a água. Afoita, deixou que um fio escorresse pelo canto de sua boca. Depois me devolveu o cantil e me disse, “Obrigada, senhor. Que deus lhe pague”. Eu só me lembro de recuperar a minha consciência e sentir o seu pescoço ainda em minhas mãos. Ela já estava sem olhos, e a minha faca, repousava ao lado do seu cadáver imóvel, ainda suja de sangue. Olhei para os lados e não encontrei os seus olhos. “O que fiz com os olhos dela?” pensei. Mas eu não sabia responder. Peguei meus trapos e continuei a andar, deixando-a para trás, coberta de corvos, ao tempo em que imaginava que fossem os corvos os responsáveis pelo sumiço de seus olhos. Mas não, não foram eles. E descobri isso pelos fatos que se sucederam por dez anos de minha vida. Eu matava e arrancava os olhos de minhas vítimas, todas de olhos azuis. A primeira vez que me vi comendo os olhos de um de meus cadáveres me foi forte. Não por que me achei hediondo, mas por que compreendi a minha verdade, graças aos pequenos espasmos de lucidez que tinha em meio aos meus surtos psicóticos. Eu precisava matar os descrentes e comer seus olhos azuis para agradar ao coisa-ruim. Ao todo, cento e cinquenta mortos, todos sufocados, sempre de olhos azuis, durante dez anos de caminhada. E no tribunal, quando o promotor me olhou daquele jeito depois de me perguntar “Por qual motivo, você as matou?” referindo-se a minhas vítimas, eu respondi “Para agradar ao diabo” então ele tornou a me perguntar “Por qual razão, você arrancava os olhos e os comia?” e eu respondi mais uma vez, em tom forte “Por que só o diabo merece olhos azuis”. Lembro-me de ouvir o martelo do juiz “Condenado!” e o soar do cadeado que trancava a porta da minha cela. “O meu corpo foi preso, mas o meu espírito não” pensava. Eu posso ouvir o rosnar do demônio em meu coração e sentir sua presença a me sorrir sem mostrar os seus dentes, me olhando cheio de satisfação, com aqueles seus olhos azuis, diariamente. Isso me alivia, pois eu tenho as minhas respostas, e sei que para encontrar o diabo é preciso matar. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam”, Salmo 23, versículo 4 — pensei. Sei que em breve vão me amarrar em uma maca e injetar algo em minhas veias, uma poção tão forte que me fará perder a minha carne de vez. Mas eu não sinto medo. Eu me sinto pronto, para habitar a casa do meu senhor. Aquele, de olhos azuis.